segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

cogito - torquato neto

 

                                Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim. 

 

Torquato Neto 


Balbúrdia Poética 3

 

Balbúrdia Poética 3

Torquato 80

Dia 24 Abril – 19h

Bar do Ernesto – Lapa – Rio de Janeiro

Produção: Artur Gomes e Tchello d´Barros

 

desde que saí de casa

trouxe a viagem de volta

cravada na minha mão

enterrada no meu umbigo

dentro fora assim comigo

minha própria condução

todo dia é dia dela

pode ser pode não ser

abro a porta ou a janela

Todo Dia É Dia D

 

Torquato Neto

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Artur Gomes - O Homem Com A Flor Na Boca

Artur Gomes

O Homem Com A Flor Na Boca

Um Canibal Tupiniquim

 por Fernando Andrade | escritor e jornalista

 Um homem cita um poema de nome. O músico já usou a cítara para musicar este poema pelo nome. Tudo já foi transformado, o poema para canção, a rima comeu a melodia e fez troça e troca de nome. Mas o poema do livro O homem com a flor da boca, da editora Penalux, nos devolve este país, do samba, do riso piada, Leminski, a força do ato canibalista de deglutir o que veio antes da poesia concreta, até a letra da canção de Luiz Tatit. Artur Gomes fez das suas, com tanta fome, comeu a maioria dos poemas que leu na vida e canibalizou e carnavaliza referências, citações, humor de longa estrada, ou beira de bar, trabalhando com gume de faca afiada e o lume de um pôr do sol em Ipanema, lembrando Vinícius.

São poemas bons para musicar tanto na solidão de um violão, quanto, atravessada por uma voz tenor, sax soprano. E não falta sexo, sacanagem, tesão, nas palavras das palavras num atravessamento em plena Quarta feira de cinzas, no resultado do carnaval. O desbunde da bunda, o levante dos órgãos, a gíria, e a menina com fio da linha escrita, carregando anedotas, fábulas e circos. O poeta não faz gênero, ele é macho, e fêmea, Simone, em segundo sexo. São poemas para emprestar ao amigo que está com fone de ouvido se atentar para a prosódia do verso, para quem sabe não copiar e transformar Amor em flor na boca.

 

https://www.literaturaefechadura.com.br/2024/01/22/livro-de-poemas-o-homem-com-a-flor-na-boca-canibaliza-a-historia-brazuca-do-verso-em-poemas-tropicalistas/


                          poesia

 

I

chegas a mim

como uma égua assanhada

não quer saber do meu carinho

só quer saber de ser trepada

 

II

 

eu te penetro

em nome do pai

do filho

do espírito santo

amém

 

não te prometo

em nome de ninguém

 

terra

 

amada de muitos sonhos

e pouco sexo

deposito a minha boca

nu teu cio

e uma semente fértil

nos  teus seios como um rio

 

Artur Gomes

Suor & Cio – MVPB Edições - 1985

https://personasarturianas.blogspot.com/


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Múltiplas Poéticas

Anjo Torto

 

quando nasci Torquato Neto

veio ler a minha mão

tinha chegado de Teresina

com uma garrafa de cajuína

e um livro na outra mão

me disse aberto e franco

não tenha medo do inferno

seja um poeta moderno

cheire as flores do mal

que a poesia de Baudelaire

vai te salvar no final 


Artur Gomes 

www.fulinaimagens.blogspot.com


MAIS TORQUATO IMPOSSÍVEL

 por Salgado Maranhão:

 A 3 anos, aproximadamente, de uma conversa entusiasmada (num bar do Largo do Machado, Rio de Janeiro) que tive com um grupo de amigos, entre os quais Marcus Fernando, nascia a ideia de um filme sobre a vida e trajetória artística do poeta tropicalista, Torquato Neto.

 Poderia ter se dado o que normalmente ocorre com os projetos sonhados em mesas de bares: nada. Porém, deu-se o contrário: no dia seguinte, Marcus me telefonou pedindo ajuda na aproximação com a viúva do poeta, Ana Duarte.

 EM PRINCÍPIO, ELA se mostrou exausta de um assunto que há tantos anos lhe causava dores. Porém, logo ficou solícita, quando lhe garanti que seria um trabalho diferente de tudo que havia sido feito, até então, em torno da obra do poeta e de sua brilhante carreira.

 Ontem (11/12), tive oportunidade de comprovar o que prometi à minha saudosa amiga que, infelizmente, nos deixou antes de poder comprovar o belíssimo resultado do filme "TORQUATO NETO --Todas as Horas do Fim", de Marcos Fernando e Eduardo Ades.

 DIFERENTE DOS DEMAIS documentários, onde, em geral, um discurso linear acompanhe as cenas vividas, desde o início, pelo biografado, os autores adentraram-se numa pesquisa gigantesca, alargando o significante, trazendo ao debate as diversas interfaces e correlações de Torquato, não apenas com o movimento da Tropicália e os seus próceres de primeira hora, mas, mostrando um grande painel das ARTESmanhas em geral, em que o grande artista se envolvera.

 Quero, aqui neste breve testemunho, declarar aos queridos realizadores desta instigante obra, meu entusiasmo por essa semente que explodiu em verdadeira poesia.

 *Salgado Maranhão é poeta premiado (prêmio Jabuti e da Academia Brasileira de Letras) e letrista


 LET’S PLAY THAT


quando eu nasci

um anjo louco muito louco

veio ler a minha mão

não era um anjo barroco

era um anjo muito louco, torto

com asas de avião

eis que esse anjo me disse

apertando a minha mão

com um sorriso entre dentes

vai bicho desafinar

o coro dos contentes

vai bicho desafinar

o coro dos contentes

let"s play that

 

Torquato Neto

 

 TORQUATO NETO, O VAMPIRO TROPICALISTA


Acabamos de assistir ao filme documentário “Todas as horas do fim”, focando a trajetória do poeta maior do Tropicalismo. Sai do cinema bem mexido, pois ali está a trilha sonora da juventude de uma geração de brasileiros, como foi a minha, estudante secundarista daqueles inesquecíveis anos de brilho e chumbo.

 Torquato tem uma grandeza enorme para nós, não só pela sua poética transitando forte em nossas veias, mas pela tentativa de uma revolução cultural tropicalista nos anos 60/70, onde foi um dos líderes, abortada pela brutal repressão de uma sanguinária ditadura militar.

“Torquato Neto foi, na sua lucidez, o mais teórico dos tropicalistas convictos desde o início. Sua educação e formação cultural lhe conferiram uma posição de grande respeito. Mas, ao contrário da brilhante dupla Gil-Caetano, acrescida de Capinam & Tom Zé (para nos atermos aos compositores baianos daquela capa do LP Tropicália), Torquato não deixou sua vida ser levada ao sabor de ventos. Desde logo fixou-se numa meta trágica, a da própria morte.”

Depoimento do produtor e pesquisador musical Zuza Homem de Mello, no documento “Tropicália 20 Anos”, produzido pelo SESC SP, em 1987.
Agora, 50 anos depois do auge do movimento tropicalista (1967), Torquato começa finalmente a ser redescoberto e sua poesia vem sendo revisitada em livros, regravações e documentário. Como disse Augusto de Campos citando Décio Pignatari: “na Geléia Geral brasileira, alguém tem de ser osso e medula.”

Portanto, destaque para o belíssimo “Todas as horas do fim”, de Eduardo Ades e Marcus Fernando com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, onde é alinhavada a trajetória de vida do poeta, cineasta, compositor e jornalista, que foi uma das cabeças, junto com Rogério Duarte, Helio Oiticica, Glauber Rocha e José Celso Martinez, das mudanças culturais brasileiras dos anos 60 e 70.

Inclua-se dentro desse pacote torquateano, o livro “O risco do berro” de Isis Rost, cuja programação visual (fotos, ilustrações, memória e diagramação) segue a trilha da fragmentação tropicalista dos anos 70, com uma narrativa poética aguda e reveladora por parte da autora. Embora nada acadêmico no sentido clássico, o livro é mesmo uma quase-tese sobre a obsessão do poeta pela morte e pela loucura.

Outro livro que merece destaque é o “A Carne Seca é Servida” de Kenard Kruel, com apresentação de Durvalino Filho, uma pesquisa das mais profundas sobre o poeta criador da revista NAVELOUCA. 

 Luis Turiba


 

um quarteto de passos
na corda bamba

( pós - Torquato )

primeiro passo
desocupar rápido
esse espaço.

não há como
se virar.

encaixotados
germinam
tumores.

segundo passo
invadir vasto
teu corpo -
ócio
vazio ósseo.

não há poesia
se faltar.

a feliCidade é
uma fábrica
de horrores.

terceiro passo
sentir tátil
a físsil
forma fóssil
do salto.

não há como
se calar.

escorrem
gritos
das gretas.

quarto passo
coma meus
olhos
esqueça.

garbo gomes
10:15 am
03.02.24

Intertexto :

Primeiro passo é tomar
conta do espaço...
Antes ocupe
depois se vire.

Torquato Neto

Arte :
Jean Michel
Basquiat
Stardust
( 1983) 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim



vampiro goytacá

canibal tupiniquim

             poesia muito prosa

viagens metafóricas por realidades reinventadas

 

 veraCidade

 

por quê trancar as portas tentar proibir as entradas se já habito os teus cinco sentidos e as janelas estão escancaradas ? um beija flor risca no espaço algumas letras de um alfabeto grego signo de comunicação indecifrável eu tenho fome de terra e esse asfalto sob a sola dos meus pés agulha nos meus dedos quando piso na augusta o poema dá um tapa na cara da paulista flutuar na zona do perigo entre o real e o imaginário joão guimarães rosa caio prado martins fontes um bacanal de ruas tortas eu não sou flor que se cheire nem mofo de língua morta o correto deixei na cacomanga matagal onde nasci com os seus dentes de concreto são paulo é quem me devora   selvagem devolvo a   dentada na carne da rua aurora


serAfim 1 -                  Artur Gomes

 

 para ademir assunção

um nome escrito no vento

 

não quero o sentido normal

da coisa como me aparenta

quero a realidade

exatamente como a gente inventa 

 

     no concreto do abstrato

na argamassa do concreto

sou

vampiro bêbado de sangue

assassinei os alpharrábios

para inventar meu alphabeto


tempo de poesia

para renata magliano

 

lancei o tempo

numa agulha da fresta

 

ainda bêbado de ontem

bebo as trina e cinco pausas

de uma mulher em chamas

que ainda não conheço

 

o tempo me dirá o endereço

como metáfora ou alquimia

 

e sendo drama ou festa

tempo de poesia

é o que nos resta

 

vamos comer mastigar chupar beber

devorar  deglutir cuspir escrever  xingar falar sobreviver  sobrevoar os telhados  de todos os fantasmas  goytacá  ancestrais  invadir os palácios de todos tupiniquins canibais  mesmo que o templo esteja escuro não me mostre o que preciso não quero perder o meu  juízo nos currais de assombradado tem um morcego nas cancelas principais vamos pichar nos muros : sem justiça não haverá paz

 

 no lado esquerdo

do peito

o direito não conforta
nem comporta a estrada
que preciso

nu poema 

a porta
que se abre
a procura do inciso


31 janeiro 2010

era um domingo de sol rock and roll e poesia irina gozou comigo quando beijei santa teresa no parque das ruínas com uma bela imagem de cristo tatuada em nossas costas depois de uma noite de sonhos amanhecemos nas laranjeiras dentro do severina o famoso botequim mais uma vez me beijou e bem ali no pé do ouvido me falou assim:

 - vamos pra saideira

meu vampiro goytacá

canibal tupiniquim meu serafim

 

a saideira foi itacoatiara itaipu

 

engenho do mato dentro

engenho de dentro fora

quando penso que clara está vindo

irina já foi embora

 

o barro de alguns barracos  continuam entranhados na carne com seus  nomes tapera cacomanga cupim queimado cambaíba ururaí olinda morro grande santa cruz quilombo lagamar guriri trago a poeira na sola dos meus pés o sangue das pessoas trouxe impregnados nas  unhas vampiro  goytacá canibal  tupiniquim 

no  branco do papel deponho a faca a foice navalha canivete já fui moleque pivete das esquinas dos bordéis da rua do vieira paraíso perdido joazeiro coqueirinho nas mallarmargens da br

já fui do breque dos pandeiros das cuícas do couro cru na carne viva goytacá boy perdido na paulista  roubei poemas do piva para vender nas lanchonetes mar a vista em bertioga e o coisa ruim do ademir continua na ponta da língua da memória

 quando  criança brincava nos sonhos com cobras de pique esconde no porão da casa onde aprendi a enxergar   clara/luz na escuridão quando seus olhos de vidro

 viraram espelhos para os meus numa madrugada  27 agosto  1948 datas também me acompanham desde que vi o primeiro clarão diurno quando o trem passou para dores de macabu 

quando estive na bolívia senti o cheiro de corumbá ali de perto em assunção do paraguai porto viejo canavarro o barro vermelho no carnaval pelas fronteiras cerveja com caldo de piranha  a dona de um bordel no pantanal chamava os jacarés com nomes de jogadores de futebol quando perdi o avião pra boa vista

 

 tem noites que a lua cheia me chega com sangue entre os dentes com aquele gosto de veneno escorrido das serpentes tem dias que as serpentes me chegam com gosto de lua cheia


a mulher dos sonhos me deixou de quatro a ver navios com pavio aceso essa palavra incendeia os poros pelos orifícios esse meu ofício de perfurar na carne o que não cabe in-verso nem por um segundo nem por um milímetro nesse acampamento logo depois da febre como marimbondo provo o teu veneno

quem me vê

assim

tão comportado

não sabe

o que se passa

aqui no centro

 

não sabe do vulcão

em erupção

nesse serTão

do mato dentro

 

  a traição das metáforas

para juliana stefani

 

dandara ainda mora

naquela beira  de estrada

com seu vestido amarelo

no rio grande do sul

mesmo que não esteja

ainda a vejo

atravessando a calçada

saindo do carro azul

abrindo o portão da casa

de 7 portas douradas

 com mil  garrafas de vinho

psicografadas na sala

por algum poeta dos pampas

que escreveu por aquelas rampas

o que testemunhou nos vinhedos

quando italianos chegaram

nas serras dos meus segredos



https://fulinaimacarnavalhagumes.blogspot.com/


 


 Com Os Dentes Cravados Na Memória

 

A Mocidade Independente de Padre Olivácio – A Escola de Samba Oculta No Inconsciente Coletivo, nasceu em dezemvro de 1990, durante uma viagem em que cia de Guiomar Valdez, levamos uma turma de estudantes da então ETFC(IFF), a Ouro Preto-MG, como premiação por terem vencidos a Gincana Cultural desenvolvida durante o ano, pelo Grêmio Estudantil Nilo Peçanha. Lá conheci Gigi Mocidade – A Rainha da Bateria, com quem vivi até 1996.

 

A Igreja Universal do Reino de Zeus, criei em 2002 durante a 1ª Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes-RJ, que foi realizada nas dependências do Ginásio de Esportes do então CEFET-Campos, onde na ocasião lancei o livro BraziLírica Pereira : A Traição das Metáforas.

O grande objetivo da IURZ é homenagear deuses deusas da África e Grécia para de alguma forma descobrir de onde vem as nossas ancestralidades. De alguma forma e em alguns momentos mitologia grega e africana se misturam e viajando metaforicamente nessas realidades reinventadas vim desaguar no Vampiro Goytacá canibal Tupiniquim.

 

Artur Gomes

https://arturgumes.blogspot.com/




O Homem Com A Flor Na Boca

Artur Gomes O Homem com A Flor Na Boca      * Poética, política e memória   Escrever prefácio para um livro de Artur Gomes é um des...