sexta-feira, 22 de março de 2024

Sérgio de Castro Pinto

 

O elefante

A João de Farias Pimentel Neto (Netinho)

 

a cor de pólvora que não explode

barril de pólvora mansa

apesar do pavio da tromba

 

Sérgio de Castro Pinto

In o cristal dos verões

escrituras editora - 2007

quarta-feira, 20 de março de 2024

Ancestrais - Amélia Alves

 

Ancestrais

Para meus griots, pelo 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

 

As coisas que não vivi

me foram dadas por memória

de espíritos reencarnados

nos gritos da nossa história,

em lances de chibatada,

nos passes de luta e dança,

nas voltas de espadas e lança.

 

E relembranças das tempo

de banzo a redescobrir

sagas de pai, de mãe, avós

e chagas de bisavós,

cantos de tataravós,

em portas de identidade,

promessa de liberdade

 

a(re)escrever o que me foi de futuro, em dor ainda .

 

Amélia Alves

In No Reverso do Viés

Prêmio Pizarro Drummond para Livros Inéditos – Categoria Poesia – 2º lugar

Ibis Libris - 2015

Michaela v. Schmaedel

Ainda somos o homem

ancestral agachado

nas savanas do Quênia

 

                              Michaela v. Schmaedel

múltiplas poéticas

no hotel amazonas - galvez o imperador do acre  hospedou-se  em  sua passagem por campos dos goytacazes em direção a vitória do espírito santo e deixou por aqui o vampiro goytacá que mora neste hotel até hoje e passa as madrugadas na janela do quarto olhando o pátio interno tentando reencontrar o seu amor benta pereira muitas vezes vi lágrimas descendo dos seus olhos e as mãos apontadas para o telhado do outro lado do corredor enquanto rezava para santo antônio e nina aroeira quando viu pelos corredores a linda  flor de florlisbella passos

 

Artur Gomes

Vampiro Goytacá 

https://arturgumes.blogspot.com/



Crônica do sertão mineiro

 

Em um quarto honesto de hotel

Um homem acorda suado

No meio da madrugada

Morna e quieta

de uma cidade

ao norte

que rasga o sertão.

Em um golpe

se livra

Do lençol,

De brancura e perfume

compatíveis

Com a diária

Que cabe em seu bolso.

Toda cama de hotel é imensa

Para um homem sozinho,

E antes que

O recapture o sono,

Ele imagina outro movimento:

Lentamente, indo ao chão,

o vestido justo,

Colado ao corpo

Da mulher que conheceu

Noite passada.

Quando enfim adormece,

Em sonho, a nudez

Dessa mulher

O leva em paz

Até o abandono

Do amanhecer.

 

André Giusti, Montes Claros – Brasília, outubro/2022   



 

todas as mulheres do mundo

 

 

com as mulheres do mundo,

que pensava em amar,

me descobri vazio,

um madeireiro a procurar

no bosque imenso e profundo

árvores que cortava sem vacilar.

advertiu-me um velho sábio:

o bosque há de acabar!

sem dar bola a tal conselho

continuei o machado a afiar.

dos golpes começaram a brotar

rebentos fortes, sadios.

eu, espantado, a especular:

o que neles era contido

que não saberia explicar?

de novo o velho sábio

veio comigo a conversar:

dos rebentos produzidos

há sua alma a clamar

perdão pelos golpes dados.

de volta ao bosque fui buscar

as árvores que tinha golpeado.

perdão queria implorar.

na primeira me vi avô,

na segunda, um filho a chorar

na terceira, um pai perdido

e na quarta, uma mãe a lamentar.

depois do bosque percorrido,

o crepúsculo a se aproximar,

nas mulheres que tinha amado

percebi que o presente a ganhar

era o que elas tinham gerado.

antes da noite terminar

veio o velho acompanhado

das orixás a me mostrar

que dos golpes que havia dado

só uma pessoa poderia magoar,

uma pessoa que era resultado

das mulheres que desejava amar,

todas contidas em mim mesmo

na figura de pai a buscar

a mãe que nunca teria sido.


*

 tudo começa num ponto

às vezes é o centro

equidistante

entre dois oceanos

às vezes

apenas um ponto

intersecção de duas linhas

um coração que bate

um ponto

onde tudo começou


                Cesar Augusto de Carvalho 


na casa da infância

tinha banho de tanque

galinhas dormiam no pé de manga

tinha boneca de espiga de milho

trem de madeira no chão de trilhos

 

na casa da infância

tinha porco no chiqueiro

pés de mamão no terreiro

tinha pão com marmelada

amarelinha na calçada

 

na casa da infância

se brincava de esconde-esconde

se fartava de fruta do conde

tinha papo no portão

quermesse de são joão

 

na casa da infância

tinha namoro na praça

crianças em arruaças

tinha arrasta pé

fumaça de chaminé

 

na casa da infância

tinha pés de alface

comida pra quem chegasse

tinha pé de uva

corrida na chuva

 

na casa da infância

tinha cerca de madeira

pé de jabuticabeira

tinha sol na varanda

pés de pitanga

 

na casa da infância

tinha café no bule

bolinhas de gude

e quase se morria

de tanta alegria

 

na casa da infância

tinha música de radiola

pés de amora

insetos no jardim

colorido de jasmins

 

na casa da infância

tinha muitos amigos

brincar era o maior perigo

tinha goteiras na sala

penduradas nas mandalas

 

na casa da infância

tinha galinha assada

papo solto rolava

tinha cheiro de cozinha

sorriso largo da vizinha

 

na casa da infância

a primeira namorada

tinha olhos de esmeralda

tudo era motivo pra brincadeira

até escorregar na bananeira

 

na casa da infância

tinha salada de frutas tantas

recheadas de boas lembranças

tinha o essencial

amor era o prato principal

 

na casa da infância

tudo valeu a pena

tinha vagalume de estrelas

céu de fazer poemas

 

na casa da infância

imensa gratidão

nem toda casa da infância

é assim não

 

Dinovaldo Gillioli



segunda-feira, 18 de março de 2024

Mútiplas Poéticas



 

ditadura

 

 

ditadura

palavra dura

tão dura

que dói



 Cabresto


 

me fiz feliz feito besta

feito besta andarilhei

de repente, parei.

de soslaio, bestas-feras

me armavam um cabresto.

sorri e disse

só to feliz feito besta

porque de besta me fiz feliz

e não preciso de cabresto


se fizesse da prosa, poesia

se fizesse da poesia, prosa

em vinte e quatro quadros

a arte da vida projetaria

e me calaria


cut-up

 

hoje assaltei Cabral

tesourei Edgard

mastiguei Oswald

nada sobrou

palavra!


passo a passo

passo

carros, árvores

passo

passos apressados

passo

jornais, revistas

passo

manifestantes

passo

tela de TV

passo

glórias antigas

passo

passo errado

passo

autoridades

passo

passo em falso

passo

amigos do rei

passo

passo extremo

passo

gente armada

passo

passo errado

passo

passam mentiras

passo

ódio e raiva

passo

passo a passo

passo

carros, árvores

passo

pássaros voam


Cesar Augusto de Carvalho

 Curto Circuito

Editora Patuá - 2019


POEMAS

 

1.

daqui

do meu ventre

uma língua selvagem:

a ânsia furiosa de nomear

o mundo e de dizer:

    [amo-te em toda a minha combustão].

 

2.

acordam as vielas num

olhar de chão,

os lábios

presos aos dedos que matam:

é preciso dizer não,

deixar cair,

absorver o vento na sua

dimensão maior

 

a dimensão que as palavras

cristalizam [ou que não cristalizam

ou que deixam cair num

olhar de vácuo

 

as palavras os signos que

representam apenas o que

posso deixar sentir,

o que o meu corpo sugere,

 

o que o meu corpo ama,

o que os meus dedos

encobrem num mistério de folhas.

 

 

3.

 

porque a palavra não é mais

porque se quebrou o sentido

da nossa visão

 

toda a vertigem / todas as palavras

são um chamamento para

o lugar dos mortos.

 

 

4.

 

nada fica por detrás

tudo é claro, tudo

se alimenta no latido

dos cães.

 

 

 

5.

 

para Rainer Maria Rilke

 

não percebemos o gato na sua identidade

como também ele não nos percebe na nossa

 

perante a Paisagem,

o gato será apenas um gato, felix silvestris catus,

originário do egipto antigo, animal amado

por homens, mulheres, escritores

 

perante a Paisagem,

o gato tem um olhar livre de palavras

e habita um mundo ainda não nomeado,

sem uma simbólica ou um sentido claro

de existência

 

se, da Paisagem,

um pequeno pássaro voar até ele,

será apenas isso: alimento, nutrição,

algo que possa segurar ou deixar fugir

 

nós, contudo,

chamamos a uma águia-real

o animal mais magnífico dos céus

e chamamos ao nosso desejo de expressão

criatividade e ao que nasce das nossas mãos

linguagem, poesia, literatura

 

e cremos, também,

que a nossa identidade está predeterminada

e que nunca se perde

e que a nossa humanidade se garante

no próprio facto de existirmos

 

contudo,

perante o olhar de nós mesmos,

os mortos da Paisagem observam-nos,

 

[sem uma língua que possa nomear

o espaço aberto à sua volta.

 

Jorge Vicente

 

nota biográfica: Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem cinco livros publicados, sendo o último cavalo que passa devagar (voltad’mar: 2019).

Contacto: jorgevicente.seacarrier@gmail.com

foto: Ozias Filho 


domingo, 17 de março de 2024

Adejo - Marcelo Soares

 

Adejo

 

entre as nuvens

voar parece um sonho,

ação simples

de abrir-se para o vento

e esperar que em um movimento

será lançado pelos ares.

 

Marcelo Soares

LITERATURA @MAISUMMARCELO

O Homem Com A Flor Na Boca - por Simone Bacelar


"O Homem com a Flor na Boca" é uma coletânea de poesias que captura a essência da experiência humana através de uma linguagem poética marcante. Escrito pelo talentoso autor Artur Gomes @fulinaima , o livro explora temas universais cativando o leitor com sua sensibilidade e profundidade. As poesias refletem uma jornada emocional envolvente, onde cada verso é uma janela para o coração e a mente do autor, convidando o leitor a se perder nas palavras e encontrar significado em cada linha. Com uma mistura de imagens vívidas, metáforas evocativas e uma linguagem única, "O Homem com a Flor na Boca" é uma obra que ressoa com todos aqueles que buscam conexão e compreensão no mundo ao seu redor.

 

Simone Bacelar

https://arturgumes.blogspot.com/

 



O Homem Com A Flor Na Boca

Artur Gomes O Homem com A Flor Na Boca      * Poética, política e memória   Escrever prefácio para um livro de Artur Gomes é um des...