O elefante
A João
de Farias Pimentel Neto (Netinho)
a cor de pólvora que não explode
barril de pólvora mansa
apesar do pavio da tromba
Sérgio
de Castro Pinto
In o cristal dos verões
escrituras editora - 2007
na construção de um novo projeto para o renascimento do Congresso Brasileiro de Poesia
O elefante
A João
de Farias Pimentel Neto (Netinho)
a cor de pólvora que não explode
barril de pólvora mansa
apesar do pavio da tromba
Sérgio
de Castro Pinto
In o cristal dos verões
escrituras editora - 2007
Ancestrais
Para meus griots, pelo 20 de novembro, Dia da
Consciência Negra.
As coisas que não vivi
me foram dadas por memória
de espíritos reencarnados
nos gritos da nossa
história,
em lances de chibatada,
nos passes de luta e dança,
nas voltas de espadas e
lança.
E relembranças das tempo
de banzo a redescobrir
sagas de pai, de mãe, avós
e chagas de bisavós,
cantos de tataravós,
em portas de identidade,
promessa de liberdade
a(re)escrever o que me foi
de futuro, em dor ainda .
Amélia Alves
In No Reverso do Viés
Prêmio Pizarro Drummond
para Livros Inéditos – Categoria Poesia – 2º lugar
Ibis Libris - 2015
no hotel amazonas - galvez o imperador do acre hospedou-se
em sua passagem por campos dos
goytacazes em direção a vitória do espírito santo e deixou por aqui o vampiro goytacá
que mora neste hotel até hoje e passa as madrugadas na janela do quarto olhando
o pátio interno tentando reencontrar o seu amor benta pereira muitas vezes vi
lágrimas descendo dos seus olhos e as mãos apontadas para o telhado do outro
lado do corredor enquanto rezava para santo antônio e nina aroeira quando viu
pelos corredores a linda flor de florlisbella
passos
Artur Gomes
Vampiro Goytacá
Crônica
do sertão mineiro
Em
um quarto honesto de hotel
Um
homem acorda suado
No
meio da madrugada
Morna
e quieta
de
uma cidade
ao
norte
que
rasga o sertão.
Em
um golpe
se
livra
Do
lençol,
De
brancura e perfume
compatíveis
Com
a diária
Que
cabe em seu bolso.
Toda
cama de hotel é imensa
Para
um homem sozinho,
E
antes que
O
recapture o sono,
Ele
imagina outro movimento:
Lentamente,
indo ao chão,
o
vestido justo,
Colado
ao corpo
Da
mulher que conheceu
Noite
passada.
Quando
enfim adormece,
Em
sonho, a nudez
Dessa
mulher
O
leva em paz
Até
o abandono
Do
amanhecer.
André
Giusti, Montes Claros –
Brasília, outubro/2022
com as mulheres do mundo,
que pensava em amar,
me descobri vazio,
um madeireiro a procurar
no bosque imenso e profundo
árvores que cortava sem vacilar.
advertiu-me um velho sábio:
o bosque há de acabar!
sem dar bola a tal conselho
continuei o machado a afiar.
dos golpes começaram a brotar
rebentos fortes, sadios.
eu, espantado, a especular:
o que neles era contido
que não saberia explicar?
de novo o velho sábio
veio comigo a conversar:
dos rebentos produzidos
há sua alma a clamar
perdão pelos golpes dados.
de volta ao bosque fui buscar
as árvores que tinha golpeado.
perdão queria implorar.
na primeira me vi avô,
na segunda, um filho a chorar
na terceira, um pai perdido
e na quarta, uma mãe a lamentar.
depois do bosque percorrido,
o crepúsculo a se aproximar,
nas mulheres que tinha amado
percebi que o presente a ganhar
era o que elas tinham gerado.
antes da noite terminar
veio o velho acompanhado
das orixás a me mostrar
que dos golpes que havia dado
só uma pessoa poderia magoar,
uma pessoa que era resultado
das mulheres que desejava amar,
todas contidas em mim mesmo
na figura de pai a buscar
a mãe que nunca teria sido.
*
tudo começa num ponto
às vezes é o centro
equidistante
entre dois oceanos
às vezes
apenas um ponto
intersecção de duas linhas
um coração que bate
um ponto
onde tudo começou
Cesar Augusto de Carvalho
na casa da infância
tinha banho de tanque
galinhas dormiam no pé de
manga
tinha boneca de espiga de
milho
trem de madeira no chão de
trilhos
na casa da infância
tinha porco no chiqueiro
pés de mamão no terreiro
tinha pão com marmelada
amarelinha na calçada
na casa da infância
se brincava de
esconde-esconde
se fartava de fruta do
conde
tinha papo no portão
quermesse de são joão
na casa da infância
tinha namoro na praça
crianças em arruaças
tinha arrasta pé
fumaça de chaminé
na casa da infância
tinha pés de alface
comida pra quem chegasse
tinha pé de uva
corrida na chuva
na casa da infância
tinha cerca de madeira
pé de jabuticabeira
tinha sol na varanda
pés de pitanga
na casa da infância
tinha café no bule
bolinhas de gude
e quase se morria
de tanta alegria
na casa da infância
tinha música de radiola
pés de amora
insetos no jardim
colorido de jasmins
na casa da infância
tinha muitos amigos
brincar era o maior perigo
tinha goteiras na sala
penduradas nas mandalas
na casa da infância
tinha galinha assada
papo solto rolava
tinha cheiro de cozinha
sorriso largo da vizinha
na casa da infância
a primeira namorada
tinha olhos de esmeralda
tudo era motivo pra
brincadeira
até escorregar na bananeira
na casa da infância
tinha salada de frutas
tantas
recheadas de boas
lembranças
tinha o essencial
amor era o prato principal
na casa da infância
tudo valeu a pena
tinha vagalume de estrelas
céu de fazer poemas
na casa da infância
imensa gratidão
nem toda casa da infância
é assim não
Dinovaldo Gillioli
ditadura
ditadura
palavra
dura
tão
dura
que dói
Cabresto
me fiz
feliz feito besta
feito
besta andarilhei
de
repente, parei.
de
soslaio, bestas-feras
me
armavam um cabresto.
sorri e
disse
só to
feliz feito besta
porque
de besta me fiz feliz
e não
preciso de cabresto
se fizesse da prosa, poesia
se fizesse da poesia, prosa
em vinte e quatro quadros
a arte da vida projetaria
e me calaria
cut-up
hoje assaltei Cabral
tesourei Edgard
mastiguei Oswald
nada sobrou
palavra!
passo a passo
passo
carros, árvores
passo
passos apressados
passo
jornais, revistas
passo
manifestantes
passo
tela de TV
passo
glórias antigas
passo
passo errado
passo
autoridades
passo
passo em falso
passo
amigos do rei
passo
passo extremo
passo
gente armada
passo
passo errado
passo
passam mentiras
passo
ódio e raiva
passo
passo a passo
passo
carros, árvores
passo
pássaros voam
Cesar Augusto de Carvalho
Curto Circuito
Editora Patuá - 2019
POEMAS
1.
daqui
do meu
ventre
uma língua selvagem:
a ânsia
furiosa de nomear
o mundo e de dizer:
[amo-te em toda a minha
combustão].
2.
acordam as vielas num
olhar de chão,
os lábios
presos aos dedos que matam:
é preciso dizer não,
deixar cair,
absorver o vento na sua
dimensão maior
a dimensão que as palavras
cristalizam [ou que não cristalizam
ou que deixam cair num
olhar de vácuo
as palavras os signos que
representam apenas o que
posso deixar sentir,
o que o meu corpo sugere,
o que o meu corpo ama,
o que os meus dedos
encobrem num mistério de folhas.
3.
porque a palavra não é mais
porque se quebrou o sentido
da nossa visão
toda a vertigem / todas as palavras
são um chamamento para
o lugar dos mortos.
4.
nada fica por detrás
tudo é claro, tudo
se alimenta no latido
dos cães.
5.
para Rainer Maria Rilke
não percebemos o gato na sua identidade
como também ele não nos percebe na nossa
perante a Paisagem,
o gato será apenas um gato, felix silvestris catus,
originário do egipto antigo, animal amado
por homens, mulheres, escritores
perante a Paisagem,
o gato tem um olhar livre de palavras
e habita um mundo ainda não nomeado,
sem uma simbólica ou um sentido claro
de existência
se, da Paisagem,
um pequeno pássaro voar até ele,
será apenas isso: alimento, nutrição,
algo que possa segurar ou deixar fugir
nós, contudo,
chamamos a uma águia-real
o animal mais magnífico dos céus
e chamamos ao nosso desejo de expressão
criatividade e ao que nasce das nossas mãos
linguagem, poesia, literatura
e cremos, também,
que a nossa identidade está predeterminada
e que nunca se perde
e que a nossa humanidade se garante
no próprio facto de existirmos
contudo,
perante o olhar de nós mesmos,
os mortos da Paisagem observam-nos,
[sem uma língua que possa nomear
o espaço aberto à sua volta.
Jorge Vicente
nota biográfica: Jorge Vicente nasceu
em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em
Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e
revistas. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem cinco livros
publicados, sendo o último cavalo que
passa devagar (voltad’mar: 2019).
Contacto: jorgevicente.seacarrier@gmail.com
foto: Ozias Filho
Adejo
entre as nuvens
voar parece um sonho,
ação simples
de abrir-se para o vento
e esperar que em um movimento
será lançado pelos ares.
Marcelo
Soares
LITERATURA @MAISUMMARCELO
"O Homem com a Flor na Boca" é uma coletânea de poesias que
captura a essência da experiência humana através de uma linguagem poética
marcante. Escrito pelo talentoso autor Artur Gomes @fulinaima , o livro
explora temas universais cativando o leitor com sua sensibilidade e
profundidade. As poesias refletem uma jornada emocional envolvente, onde cada
verso é uma janela para o coração e a mente do autor, convidando o leitor a se
perder nas palavras e encontrar significado em cada linha. Com uma mistura de
imagens vívidas, metáforas evocativas e uma linguagem única, "O Homem com
a Flor na Boca" é uma obra que ressoa com todos aqueles que buscam conexão
e compreensão no mundo ao seu redor.
Simone
Bacelar
https://arturgumes.blogspot.com/
Artur Gomes O Homem com A Flor Na Boca * Poética, política e memória Escrever prefácio para um livro de Artur Gomes é um des...